06/08/2026

Por que nunca mais a esquerda – Por Lucia Festuccia

Por que nunca mais a esquerda – Por Lucia Festuccia

O presidente Lula declarou que não é de esquerda Foto Pedro Kirilos Estadão

 

A história política conservadora brasileira demonstra que alianças duradouras costumam ser construídas menos por afinidades pessoais e mais por convergências programáticas.

 

Ao longo das últimas décadas, diferentes correntes políticas buscaram composições baseadas em projetos de Estado, modelos econômicos e visões institucionais compartilhadas.

 

Nesse contexto, uma análise das convergências políticas na direita brasileira, a comparação entre as posições públicas do senador Flávio Bolsonaro e do deputado federal Luiz Philippe de Orleans e Bragança revela um conjunto expressivo de pontos de contato que ajudam a compreender o atual desenho da direita brasileira.

 

Embora possuam trajetórias distintas — Flávio Bolsonaro ligado à construção do movimento político liderado pelo ex-presidente Jair Bolsonaro e Luiz Philippe associado a uma vertente liberal-conservadora de forte inspiração institucional — ambos passaram a defender agendas que frequentemente convergem em temas considerados centrais para o debate nacional.

 

A análise dessas convergências permite observar não apenas semelhanças ideológicas, mas também uma possível complementaridade entre experiência parlamentar, formulação de propostas e articulação política.

 

No campo institucional, o primeiro elemento de aproximação está na defesa de reformas estruturais do Estado. Luiz Philippe tem sustentado que o Brasil necessita de uma profunda reorganização institucional, enquanto Flávio Bolsonaro frequentemente associa o desenvolvimento econômico à redução do peso da máquina pública. Em termos históricos, essa linha de pensamento remete às reformas liberalizantes discutidas desde os anos 1990, que buscavam reduzir custos administrativos e aumentar a eficiência governamental.

 

Outro aspecto relevante é a defesa da redução do tamanho do Estado e da ampliação das liberdades econômicas. Trata-se de uma pauta presente em diversos governos reformistas ao redor do mundo e que ganhou força no Brasil após a crise fiscal enfrentada pela União, estados e municípios nas últimas décadas. Tanto Luiz Philippe quanto Flávio Bolsonaro costumam situar suas propostas dentro dessa tradição liberal.

 

No debate institucional contemporâneo, também chama atenção a crítica à concentração de poder em Brasília e às decisões do Supremo Tribunal Federal. A discussão sobre os limites entre os Poderes da República não é nova na história brasileira. Desde a Constituição de 1988, o tema do equilíbrio institucional vem sendo objeto de debates jurídicos e políticos. As propostas defendidas por Luiz Philippe e os posicionamentos públicos do entorno político de Flávio Bolsonaro inserem-se nesse contexto de discussão sobre freios e contrapesos entre Executivo, Legislativo e Judiciário.

 

A descentralização administrativa aparece igualmente como ponto de contato. A defesa de maior autonomia para estados e municípios acompanha uma tradição federalista presente desde a Primeira República. A PEC da Autonomia, defendida por Luiz Philippe, e o discurso favorável à redução da centralização federal encontram respaldo em correntes políticas que entendem a proximidade entre gestores locais e cidadãos como fator de maior eficiência administrativa.

 

Na economia, as convergências tornam-se ainda mais evidentes. A revisão da reforma tributária, a flexibilização de normas trabalhistas e a defesa de um papel subsidiário do Estado na atividade econômica refletem uma visão segundo a qual o crescimento econômico depende de menor intervenção governamental e maior protagonismo da iniciativa privada. Historicamente, essas ideias aproximam-se das reformas econômicas implementadas em diversos países ocidentais a partir das décadas de 1980 e 1990.

 

Na área de segurança pública, ambos se aproximam de uma concepção mais rigorosa de combate à criminalidade. O endurecimento penal, o fortalecimento do sistema prisional e o enfrentamento ao crime organizado representam pautas recorrentes em setores conservadores brasileiros. Ainda que as formulações possam variar, existe convergência quanto à necessidade de ampliar a capacidade do Estado de enfrentar organizações criminosas e reduzir índices de violência.

 

A política externa constitui outro ponto relevante de aproximação. Luiz Philippe, à frente de discussões ligadas às relações exteriores e defesa nacional, tem defendido o reposicionamento internacional do Brasil como parceiro previsível e confiável. Flávio Bolsonaro, por sua vez, tem manifestado posições favoráveis ao fortalecimento das relações com os Estados Unidos. Historicamente, essa visão se contrapõe a correntes diplomáticas que priorizam maior aproximação com países do Sul Global ou estruturas multilaterais específicas.

 

No plano das liberdades públicas, ambos frequentemente destacam a liberdade de expressão como tema central do debate contemporâneo. O crescimento das redes sociais e as discussões sobre regulação digital transformaram essa pauta em um dos principais eixos de mobilização política da última década, especialmente entre grupos conservadores e liberais.

 

Também merece destaque a oposição comum às políticas econômicas do atual governo federal. Embora utilizem argumentos distintos, ambos apresentam críticas relacionadas à condução fiscal, ao papel do Estado na economia e à capacidade de geração de crescimento sustentável. Esse posicionamento os insere no campo oposicionista que vem disputando a narrativa econômica nacional desde o início do atual mandato presidencial.

 

Na educação, apesar das diferenças de ênfase, existe convergência quanto à importância estratégica do tema. Flávio Bolsonaro associa a educação à prevenção da criminalidade e à inclusão social, enquanto Luiz Philippe enfatiza a autonomia das famílias e a pluralidade de modelos pedagógicos. Em ambos os casos, a educação aparece como instrumento de transformação social e fortalecimento da cidadania.

 

Por fim, a defesa do combate à corrupção, a atuação dentro da mesma legenda partidária e a busca por uma base parlamentar alinhada reforçam elementos de proximidade política. Historicamente, a construção de coalizões eficazes no Brasil sempre dependeu da combinação entre identidade programática e capacidade de articulação legislativa. Nesse aspecto, as convergências observadas entre Flávio Bolsonaro e Luiz Philippe de Orleans e Bragança ajudam a explicar por que ambos frequentemente aparecem associados nas discussões sobre os rumos da direita brasileira.

 

Mais do que uma simples coincidência ideológica, os dezoito pontos identificados revelam uma agenda comum que abrange reforma do Estado, economia de mercado, fortalecimento institucional, segurança pública, política externa, liberdade de expressão e combate à corrupção. Sob uma perspectiva histórica e comparativa, trata-se de uma convergência que reflete tendências observadas em diversos movimentos conservadores e liberais contemporâneos, oferecendo um retrato relevante das correntes políticas que disputam espaço no cenário nacional.

 

É muito bom e saudável ter esperança!

 

Sobre a autora

 

Lucia Festuccia é advogada em Ribeirão Preto, articulista do portal BrasilAgro, consultora jurídica e voluntária do Instituto Cultural Voluntários pelo Brasil; luciafestuccia@hotmail.com; 6/8/26)