20/07/2026

Por que temos baixo poder de barganha nas negociações com os EUA

Por que temos baixo poder de barganha nas negociações com os EUA

Imagem Reprodulção Blog Amo Direito

 

Por Celso Ming

 

Deterioração fiscal, inflação e juros altos deixam o governo politicamente frágil; o problema não se resume à perda do comando sobre a execução orçamentária, hoje arrebatada pelos políticos.

 

tarifaço de 25%, que passará a vigorar no próximo dia 22, é apenas uma de um conjunto de pressões do governo Trump cujo objetivo é arrancar concessões do Brasil que ultrapassam a área comercial.

 

É o que vêm reiterando não apenas o representante da Casa Branca para o comércio exterior, Jamieson Greer, mas outras autoridades do governo dos Estados Unidos (e não só para o Brasil), sob a política do Maga, Make America Great Again.

 

Quaisquer que sejam elas, as concessões pressupõem capacidade de negociação, e esse é um enorme ponto fraco do Brasil, uma vez que enfrenta sérios entraves estruturais. É como pretender ganhar a Copa do Mundo com um meio de campo fraco, metade dos titulares contundidos, outros com força física insuficiente e falta de estratégia de jogo.

 

De longe, a maior debilidade que pesa sobre o poder de barganha do Brasil é fiscal. O rombo vai-se alargando, a dívida pública ultrapassou 81% do PIB e avança à proporção de 4% ao ano. É situação que trabalha frontalmente contra a política do Banco Central, que se vê obrigado a puxar os juros para a enormidade que aí está, sem conseguir dar conta da inflação.

 

Juros exorbitantes, por sua vez, além de pesar sobre os custos de produção, aumentam substancialmente a dívida à medida que o Tesouro incorpora os juros ao principal. O risco é o da chamada dominância fiscal, que acontece quando a política de juros perde eficácia diante do naufrágio das contas públicas.

 

Esta não é uma pinimba de ortodoxos. Qualquer que seja a política do governo, ponha ela ênfase no social ou no liberal, sua eficácia depende do equilíbrio das contas.

 

Deterioração fiscal, inflação e juros na lua deixam o governo politicamente frágil. E não se trata apenas da perda do comando sobre a execução orçamentária, hoje arrebatada pelos políticos.

 

A fragilidade do governo é mostrada também pela crescente tomada dos organismos de Estado e do monopólio da força pelo crime organizado e pela incapacidade das instituições de defesa de lutarem contra elas. Esta é uma das rachaduras pelas quais o governo Trump investe contra o governo do Brasil.

 

Se o tema é falta de poder de barganha do Brasil nesse jogo duro, é preciso repisar em outra séria debilidade, que é a excessiva proteção dada ao setor produtivo local.

 

Subsídios demais, leniência atroz com os calotes nos impostos, altas taxas alfandegárias, defesa de monopólios e de mercados cativos, corrupção e, enfim, o alto custo Brasil, tudo isso concorre para a baixa competitividade do setor produtivo e para a redução do poder de barganha do País (Estadão, 18/7/26)