Principal “parceiro” de Lula & Janja votou contra acordo UE-Mercosul

Legenda: Os presidentes da França Emmanuel Macron e do Brasil Lula da Silva. Foto Ricardo Stuckert/PR
“Para o bem e para o mal, sempre vivi segundo o mantra de que os valentes talvez não vivam para sempre, mas os cautelosos não vivem de verdade” - Richard Branson, fundador do Virgin Group

Por Paulo Junqueira
O Conselho da União Europeia, no qual estão representados os governos dos 27 países-membros, aprovou nesta última sexta-feira (9), por maioria qualificada (no mínimo 55% dos países que representem 65% da população da União), o acordo com o Mercosul que terá que ser ratificado pelos Congressos dos países do Mercosul e pelo Parlamento Europeu para que entre em vigor.
França, Hungria, Polônia, Áustria e Irlanda indicaram voto contrário ao fechamento do acordo comercial entre a União Europeia (450 milhões de habitantes) e o Mercosul (300 milhões de habitantes) no Conselho Europeu. A Bélgica se absteve. O acordo começou a ser negociado em 28 de junho de 1999, mas depois de alguns interregnos, as negociações foram reabertas em 2013.
A assinatura do acordo está prevista para sábado, 17 de janeiro, em Assunção, Paraguai, com a presença dos ministros das Relações Exteriores dos Estados Partes do Mercosul e do representante da Comissão Europeia. Mesmo com assinatura em Assunção, tratado não entrará em vigor imediatamente, pois também requer aprovação do Parlamento Europeu.
Áulicos se apressam em falsas narrativas...
O presidente Lula da Silva, que ao final de dezembro concluiu seu mandato na Presidência Pró Tempore do Mercosul, tenta agora criar a narrativa de que o acordo saiu graças ao seu empenho e ao seu protagonismo internacional.

De mãos dadas...Foto Ricardo Stuckert PR
“Não tenho dúvidas que foi graças à dedicação do presidente Lula que o acordo saiu”, afirma o ministro Carlos Fávaro, da Agricultura. Vale lembrar que nos 16 anos em que o PT esteve no comando do País, as negociações não avançaram em que pese o esforço do presidente em se aproximar do seu colega francês Emmanuel Macron, reconhecidamente o maior detrator do acordo e inimigo contumaz do agro brasileiro.
E, mais: transcrevemos o comentário esclarecedor de Rafaela Debiasi, comunicadora e palestrante, em seu canal no Instagram, que repõe a verdade sobre o acordo UE – Mercosul:
“O governo Lula quer os louros de uma vitória que tentaram sabotar no passado. É a tática de sempre: herdar o sucesso alheio e mudar a embalagem para a militância aplaudir. O acordo com a Europa finalmente saiu. Mas, cuidado com o discurso. O governo atual quer a paternidade, mas a história mostra que eles são apenas oportunistas de última hora.

Tereza Cristina, ex-presidente Jair Bolsonaro e Paulo Guedes. Foto Valter Campanato Agência Brasil
Quem tirou esse acordo do mofo de 20 anos foi o governo Bolsonaro. Em 2019, as equipes de Paulo Guedes e Tereza Cristina fecharam as bases técnicas que estão sendo assinadas agora. O trabalho foi feito com foco em liberdade econômica, não em palanque.
Na época, Macron usou a pauta ambiental como desculpa para travar tudo. A verdade é que ele nunca se preocupou com a Amazônia, mas sim em proteger o agricultor francês da eficiência imbatível do agro brasileiro. Agora o governo Lula aceita termos que podem engessar a nossa produção só pela foto oficial.
A Europa, em pós gatilho automático se nossas exportações crescerem mais de 8% ao ano, podem reintroduzir as tarifas. Na prática, estamos limitados a um crescimento pífio perto do que a Europa pode crescer vendendo seus produtos no mercado Sul. O Brasil avança, apesar da ideologia. Mas o mérito é de quem abriu o mercado em 2019 e não de quem vive de propaganda em 2026”.
Lula, Janja & Macron
As constantes viagens do casal Lula e Janja da Silva à França e as incontáveis cenas de carinho expostas pela mídia analógica e digital não pesaram em nada no intuito de Macron em fazer qualquer tipo de gesto de respeito e reconhecimento pela competência e tecnologia demonstrada pelos produtores rurais brasileiros.
Da mesma forma Macron nada fez quando vários grupos e marcas francesas ameaçaram ou implementaram boicotes a produtos do Brasil e do Mercosul principalmente carne e soja, em 2024 e no final de 2025. Dentre eles Carrefour, Danone, Les Mousquetaires (Intermarché e Netto) e Tereos.
Os porta-vozes oficiais do entorno de Lula da Silva, tão logo foram informados de que o acordo será formalizado no próximo sábado (17) no Paraguai, se apressaram em criar a narrativa de que os problemas do País terminam a partir de agora. Os menos informados ficaram entusiasmados com as notícias produzidas e divulgadas pela “mídia oficial” que, como já estamos acostumados a ver, desconectam os fatos dos princípios da realidade e, principalmente, da verdade.
Em entrevista concedida ao canal de TV Band News, o ex-ministro da Agricultura Roberto Rodrigues alertou que “o acordo não traz grandes avanços no curto prazo, mas pode ser que seja bom no longo prazo”. Ele também destaca que “o acordo abre as portas para que outros países também negociem com o Mercosul e com o Brasil”
Já a senadora e ex-ministra da Agricultura Tereza Cristina afirma que “não foi o acordo dos sonhos, mas o possível: abre portas e estabelece cotas, mas o livre comércio ainda está distante e o cenário é impactado ainda mais com as novas salvaguardas impostas pela UE que significam ameaças injustas ao nosso agro”.
O acordo comercial entre Mercosul e União Europeia enfrenta obstáculos significativos para o agronegócio brasileiro, especialmente devido às salvaguardas comerciais recentemente aprovadas. Segundo Marcos Jank, coordenador do Insper Agro Global em entrevista à CNN Brasil, “as salvaguardas representam um retrocesso para o acesso de produtos brasileiros ao mercado europeu”.
Ele destaca também que “que as commodities clássicas brasileiras – três, carnes, açúcar e etanol - são as mais prejudicadas pelo acordo. O acesso delas é muito limitado e mesmo essas cotinhas não vão ter grande efeito. Se você cria uma cota, o objetivo é que ela crie comércio. Agora vai ter uma salvaguarda que, se o volume de comércio crescer mais do que 5% da média dos três últimos anos, você pode fazer uma investigação e interromper essa cota", lembrou Jank.
O que esperar do agronegócio em 2026?

Marcos Jank Foto Divulgação
Na visão do professor Marcos Jank, o cenário macroeconômico para 2026 não é animador. Ele não espera mudanças relevantes em relação ao que o Ministério da Agricultura já vem fazendo, sobretudo diante da restrição ainda maior de recursos.
“As políticas macroeconômicas serão ruins. O seguro rural não contará com um programa de blindagem de recursos. O crédito rural avança com enormes dificuldades, os juros estão muito altos e o dólar segue cercado de incertezas. Há um grande desequilíbrio nas políticas fiscais”, avalia acrescentando que “o atual modelo de política agrícola do Brasil está envelhecido e precisa passar por uma transformação profunda, avalia o professor do Insper Marcos Jank.
“Esse é um ‘edifício’ (política agrícola) que está com ‘cupins no porão’. Todo o modelo do Plano Safra, do crédito rural, da divisão dos agricultores em categorias (Pronaf e Pronamp) e do baixo investimento em seguro rural está ultrapassado”, afirma Jank, ao Money Times.
“Precisamos rever os instrumentos, o uso dos recursos e as prioridades. O seguro rural se tornou muito mais importante porque o risco aumentou. Também é necessário expandir a irrigação e desenvolver variedades mais resistentes, mas tudo ainda está preso a um modelo do passado”, pondera.
O professor do Insper lembra ainda que o crédito rural oficial é direcionado majoritariamente aos pequenos produtores, que representam uma parcela relativamente pequena da produção total.
“O grande produtor rural recorre cada vez mais a instrumentos de mercado. Essa relação entre o agro e a Faria Lima deveria provocar uma reflexão profunda sobre Fiagros, CRAs e LCAs. A CPR teve um papel fundamental. Precisamos olhar para o futuro e nos inspirar no que outros países vêm fazendo de forma mais moderna em suas políticas agrícolas”, conclui.
Várias...
- Relatório do Supremo aponta que 179 dos 1.399 condenados pelo 8 de Janeiro seguem presos e que 114 dos detidos cumprem pena em regime fechado após condenação definitiva; há ainda 518 investigações em andamento;
- Em artigo assinado na edição de ontem (11) no jornal O Estado de São Paulo, o professor e ex-ministro da Agricultura Roberto Rodrigues fala em “futuro ameaçado” ao comentar que “Lula vetou salvaguardas que protegem pesquisas no agro e produtores rurais”;
- O Brasil tem fluxo cambial negativo de US$ 33,3 bi em 2025. A saída de recursos do País foi bem superior à registrada em 2024. Segundo o Banco Central o País registrou fluxo cambial total negativo de US$ 33,3 bilhões no acumulado de 2025;
- Em 2024 o fluxo foi negativo em US$ 18,6 bilhões. Somente no mês passado, saíram do País líquidos US$ 13,6 bilhões, conforme os dados do BC;
- Caso Master: Análise da área técnica do INSS põe sob suspeita 74% dos créditos consignados do banco;
- Documento vê irregularidades em mais de 250 mil acordos de um universo de 338,6 mil que o banco relatou ter celebrado entre outubro de 2021 e setembro de 2025;
- Agro volta a exportar mais, e receita vai a US$ 169,5 bi em 2025. Brasil vende 108,2 milhões de toneladas de soja; China compra 85,4 mi delas. Importações do setor, puxadas por fertilizantes, sobrem para US$ 38,6 bilhões;
- As carnes foram o grande destaque. Apesar das dificuldades com as negociações externas devido a tarifas e gripe aviária. O país obteve US$ 30 bilhões no ano passado, 22% a mais do que em 2024;
- O café, que também esteve com tarifa pesada imposta pelo principal importador durante parte do segundo semestre, trouxe US$ 14,9 bilhões, 31% a mais do que em 2024. O aumento externo dos preços garantiu a alta das receitas;
- As exportações de celulose renderam US$ 10,3 bilhões, um montante financeiro próximo ao de 2024, e o algodão atingiu US$ 5,1 bilhões, valor também semelhante ao do ano imediatamente anterior;
- Após retração em 2024, o país conseguiu colocar 41 milhões de toneladas de milho no exterior, com receitas de US$ 8,6 bilhões, conforme os dados da Secex;
- O açúcar perdeu espaço. As exportações recuaram para 33,8 milhões de toneladas, 12% a menos, e as receitas, devido à queda média de preços no mercado internacional, tiveram recuo ainda maior. As vendas externas do ano passado renderam US$ 14,1 bilhões, 24% a menos.
(Paulo Junqueira é advogado e produtor rural. É também presidente do Sindicato Rural de Ribeirão Preto; 11/1/26)

