17/02/2025

Queda da aprovação de Lula parece fenômeno estrutural, não de conjuntura

Queda da aprovação de Lula parece fenômeno estrutural, não de conjuntura

LULA-Foto: Marcelo Camargo - Agência Brasil

 

Por Felipe Nunes, diretor da Quaest Pesquisa & Consultoria e professor de ciência política na UFMG

 

Não há mais gratidão política automática, e a sociedade mudou, com eleitor mais crítico e menos fiel.

 

A pesquisa Datafolha confirma uma tendência captada pela pesquisa Genial/Quaest de janeiro: uma queda significativa na popularidade do governo Lula. Em janeiro, a Genial/Quaest apontou que 37% dos brasileiros avaliavam negativamente o governo enquanto 31% avaliavam positivamente. Em fevereiro, o Datafolha registrou uma avaliação positiva de apenas 24%, com 41% de avaliação negativa. Embora alguns acreditem que essa queda é apenas um fenômeno conjuntural, está me parecendo estrutural.

 

A base que elegeu Lula em 2022 está frustrada. Mulheres, pessoas de baixa renda e o eleitorado do Nordeste expressam descontentamento crescente. Ao mesmo tempo, setores que compunham a frente ampla —liberais sociais, progressistas e empreendedores individuais— já demonstram insatisfação há meses. O governo parece encastelado, distante da realidade do país.

 

Além disso, o Brasil não elege uma agenda política clara desde 2014. De 1994 a 2010, os presidentes foram eleitos com pautas bem definidas, como o combate à inflação, a redução da pobreza e os investimentos em infraestrutura. Desde 2018, as eleições têm sido marcadas pela rejeição ao incumbente. Isso cria bases eleitorais heterogêneas e instáveis. Os grupos que se uniram para derrotar um adversário acabam se fragmentando rapidamente após a vitória.

 

Lula enfrentou esse dilema ao montar um governo que tenta agradar setores com demandas contraditórias. Mas liberais sociais, que querem um Estado menor, e trabalhadores da classe D e E, que exigem mais presença estatal, entram em conflito sobre as políticas do Ministério da Fazenda. Militantes de esquerda, defensores da regulação do mercado de trabalho, e empreendedores individuais, que preferem menos regras, também divergem. Essa falta de coesão desgasta a relação do governo com sua base e dificulta a governabilidade. Ao longo do tempo, isso se transforma em desaprovação.

 

Outro fator a considerar é a ascensão de temas "pós-materiais" no debate público. Desde 2018, questões culturais e identitárias passaram a ocupar o centro da política, substituindo discussões sobre o papel do Estado na economia. Isso intensifica a polarização e dificulta a construção de consensos.

 

O desafio para o governo não é apenas melhorar indicadores econômicos, mas reconstruir uma relação de confiança e credibilidade com o eleitorado. Isso exige reconhecer a mudança estrutural em curso e ajustar sua comunicação e sua agenda política para um novo tempo (Folha, 15/2/25)