Ricardo Salles: A grandeza de saber recuar – Por Rodrigo Simões
Governador Tarcísio de Freitas fala sobre desistência de Ricardo Salles (à direita) ao lado dos candidatos Guilherme Derrite (PP) e André do Prado (PL). Foto: Bianca Gomes/Estadão
Há poucos dias, nesta mesma coluna, analisamos a candidatura de Ricardo Salles ao Senado e fizemos uma pergunta objetiva: diante dos números e da divisão de votos no campo da direita, não teria chegado a hora de recuar? Nesta segunda-feira, 28 de setembro, veio a resposta. Salles anunciou sua saída da disputa e o apoio a Guilherme Derrite e André do Prado. Se anteriormente houve espaço para a crítica, agora é igualmente necessário haver espaço para o reconhecimento. Na opinião deste jornalista, Salles tomou uma decisão acertada, politicamente madura e, sobretudo, maior que sua própria candidatura.
A POLÍTICA TAMBÉM EXIGE SABER RECUAR
Existe uma ideia equivocada de que recuar significa necessariamente perder.
Nem sempre.
Há momentos em que permanecer exige coragem.
E existem momentos em que sair exige ainda mais.
Ricardo Salles tinha candidatura registrada, trajetória política, eleitores e absoluta legitimidade para permanecer na disputa pelo Senado.
Escolheu outro caminho.
Anunciou nesta segunda-feira a desistência da candidatura e declarou apoio a Guilherme Derrite e André do Prado, os dois nomes apoiados pelo governador Tarcísio de Freitas para as vagas paulistas ao Senado.
Independentemente das divergências anteriores, o gesto merece reconhecimento.
TARCÍSIO CONSEGUIU UNIR
O governador Tarcísio de Freitas tem participação central nessa construção.
A decisão foi anunciada com Salles ao seu lado e com as presenças de Derrite e André do Prado.
Tarcísio definiu o movimento como um esforço para somar, e não dividir.
A fotografia possui um significado político evidente.
Onde havia três candidaturas disputando parcelas semelhantes do eleitorado de direita, passa a existir uma tentativa de concentração de forças em dois nomes para duas vagas.
DERRITE E ANDRÉ
Tenho opinião sobre essa disputa e nunca procurei escondê-la do leitor.
Considero Guilherme Derrite e André do Prado as melhores opções para representar São Paulo no Senado.
Derrite construiu sua trajetória tendo a segurança pública como uma de suas principais bandeiras.
André carrega experiência política e institucional acumulada, inclusive na presidência da Assembleia Legislativa paulista.
Agora, ambos recebem o apoio de Ricardo Salles na reta final.
ATÉ AS DIVERGÊNCIAS FICARAM PARA TRÁS
E talvez aqui esteja um dos aspectos mais significativos do gesto.
Salles não escondia suas diferenças com André do Prado.
Muito pelo contrário.
Houve críticas públicas duras entre eles durante a campanha.
Por isso, apoiar agora André — além de Derrite, de quem Salles já era próximo — torna a decisão politicamente mais relevante.
É fácil apoiar quem sempre esteve ao nosso lado.
Muito mais difícil é apertar a mão de alguém com quem se teve divergências e admitir que existe naquele momento um objetivo político considerado maior.
Isso também faz parte da democracia.
NÃO FOI DERROTA. FOI ESCOLHA
É evidente que os números influenciaram.
Seria ingenuidade afirmar o contrário.
Mas Salles poderia simplesmente ignorá-los.
Poderia permanecer candidato até domingo, defender seus votos e deixar que as urnas resolvessem a questão.
Preferiu não fazê-lo.
Na minha avaliação, acertou.
Transformou uma candidatura que enfrentava dificuldades em um gesto político que poderá ter influência sobre o resultado final.
Há derrotas que diminuem.
Há vitórias que engrandecem.
E há renúncias que podem produzir mais significado político do que determinadas candidaturas levadas até o fim.
CRITICAR QUANDO NECESSÁRIO. RECONHECER QUANDO JUSTO
Esse talvez seja o ponto mais importante desta coluna.
Na semana passada, critiquei Ricardo Salles.
Hoje, faço questão de cumprimentá-lo.
Não existe contradição nisso.
Contradição seria utilizar a opinião jornalística apenas para atacar quem pensa diferente e silenciar quando essa mesma pessoa pratica um gesto que consideramos correto.
Salles merece o reconhecimento pela decisão.
Na minha opinião, foi a melhor coisa que poderia acontecer neste momento da disputa paulista pelo Senado.
O COLETIVO FALOU MAIS ALTO
Ricardo Salles poderia ter pensado apenas em Ricardo Salles.
Preferiu abrir mão de sua candidatura e apoiar Derrite e André do Prado.
Tarcísio conseguiu reunir forças que até poucos dias atrás estavam divididas.
E a eleição paulista para o Senado entra em seus últimos dias com uma configuração diferente.
Na semana passada, perguntávamos se havia chegado a hora de Salles reconhecer a realidade das pesquisas.
Nesta semana, ele respondeu com uma decisão.
E decisões também revelam políticos.
Saber entrar numa disputa é importante.
Saber lutar por aquilo em que se acredita também.
Mas reconhecer o momento de colocar um projeto coletivo acima de uma candidatura pessoal exige grandeza.
Desta vez, portanto, não há crítica.
Há reconhecimento.
Ricardo Salles tomou a decisão certa.
(Rodrigo Simões; Jornalista / Administrador de Empresas / Gestor Público; Mtb 32.591/SP)

