29/09/2026

Ricardo Salles: A grandeza de saber recuar – Por Rodrigo Simões

Ricardo Salles: A grandeza de saber recuar – Por Rodrigo Simões

Governador Tarcísio de Freitas fala sobre desistência de Ricardo Salles (à direita) ao lado dos candidatos Guilherme Derrite (PP) e André do Prado (PL). Foto: Bianca Gomes/Estadão

 

Há poucos dias, nesta mesma coluna, analisamos a candidatura de Ricardo Salles ao Senado e fizemos uma pergunta objetiva: diante dos números e da divisão de votos no campo da direita, não teria chegado a hora de recuar? Nesta segunda-feira, 28 de setembro, veio a resposta. Salles anunciou sua saída da disputa e o apoio a Guilherme Derrite e André do Prado. Se anteriormente houve espaço para a crítica, agora é igualmente necessário haver espaço para o reconhecimento. Na opinião deste jornalista, Salles tomou uma decisão acertada, politicamente madura e, sobretudo, maior que sua própria candidatura.

 

A POLÍTICA TAMBÉM EXIGE SABER RECUAR

 

Existe uma ideia equivocada de que recuar significa necessariamente perder.

Nem sempre.

Há momentos em que permanecer exige coragem.

E existem momentos em que sair exige ainda mais.

Ricardo Salles tinha candidatura registrada, trajetória política, eleitores e absoluta legitimidade para permanecer na disputa pelo Senado.

Escolheu outro caminho.

Anunciou nesta segunda-feira a desistência da candidatura e declarou apoio a Guilherme Derrite e André do Prado, os dois nomes apoiados pelo governador Tarcísio de Freitas para as vagas paulistas ao Senado.

Independentemente das divergências anteriores, o gesto merece reconhecimento.

 

TARCÍSIO CONSEGUIU UNIR

 

O governador Tarcísio de Freitas tem participação central nessa construção.

A decisão foi anunciada com Salles ao seu lado e com as presenças de Derrite e André do Prado.

Tarcísio definiu o movimento como um esforço para somar, e não dividir.

A fotografia possui um significado político evidente.

Onde havia três candidaturas disputando parcelas semelhantes do eleitorado de direita, passa a existir uma tentativa de concentração de forças em dois nomes para duas vagas.

 

DERRITE E ANDRÉ

 

Tenho opinião sobre essa disputa e nunca procurei escondê-la do leitor.

Considero Guilherme Derrite e André do Prado as melhores opções para representar São Paulo no Senado.

Derrite construiu sua trajetória tendo a segurança pública como uma de suas principais bandeiras.

André carrega experiência política e institucional acumulada, inclusive na presidência da Assembleia Legislativa paulista.

Agora, ambos recebem o apoio de Ricardo Salles na reta final.

 

ATÉ AS DIVERGÊNCIAS FICARAM PARA TRÁS

 

E talvez aqui esteja um dos aspectos mais significativos do gesto.

Salles não escondia suas diferenças com André do Prado.

Muito pelo contrário.

Houve críticas públicas duras entre eles durante a campanha.

Por isso, apoiar agora André — além de Derrite, de quem Salles já era próximo — torna a decisão politicamente mais relevante.

É fácil apoiar quem sempre esteve ao nosso lado.

Muito mais difícil é apertar a mão de alguém com quem se teve divergências e admitir que existe naquele momento um objetivo político considerado maior.

Isso também faz parte da democracia.

 

NÃO FOI DERROTA. FOI ESCOLHA

 

É evidente que os números influenciaram.

Seria ingenuidade afirmar o contrário.

Mas Salles poderia simplesmente ignorá-los.

Poderia permanecer candidato até domingo, defender seus votos e deixar que as urnas resolvessem a questão.

Preferiu não fazê-lo.

Na minha avaliação, acertou.

Transformou uma candidatura que enfrentava dificuldades em um gesto político que poderá ter influência sobre o resultado final.

Há derrotas que diminuem.

Há vitórias que engrandecem.

E há renúncias que podem produzir mais significado político do que determinadas candidaturas levadas até o fim.

 

CRITICAR QUANDO NECESSÁRIO. RECONHECER QUANDO JUSTO

 

Esse talvez seja o ponto mais importante desta coluna.

Na semana passada, critiquei Ricardo Salles.

Hoje, faço questão de cumprimentá-lo.

Não existe contradição nisso.

Contradição seria utilizar a opinião jornalística apenas para atacar quem pensa diferente e silenciar quando essa mesma pessoa pratica um gesto que consideramos correto.

Salles merece o reconhecimento pela decisão.

Na minha opinião, foi a melhor coisa que poderia acontecer neste momento da disputa paulista pelo Senado.

 

O COLETIVO FALOU MAIS ALTO

 

Ricardo Salles poderia ter pensado apenas em Ricardo Salles.

Preferiu abrir mão de sua candidatura e apoiar Derrite e André do Prado.

Tarcísio conseguiu reunir forças que até poucos dias atrás estavam divididas.

E a eleição paulista para o Senado entra em seus últimos dias com uma configuração diferente.

Na semana passada, perguntávamos se havia chegado a hora de Salles reconhecer a realidade das pesquisas.

Nesta semana, ele respondeu com uma decisão.

E decisões também revelam políticos.

Saber entrar numa disputa é importante.

Saber lutar por aquilo em que se acredita também.

Mas reconhecer o momento de colocar um projeto coletivo acima de uma candidatura pessoal exige grandeza.

Desta vez, portanto, não há crítica.

Há reconhecimento.

Ricardo Salles tomou a decisão certa.

 

(Rodrigo Simões; Jornalista / Administrador de Empresas / Gestor Público; Mtb 32.591/SP)