30/06/2026

Se vier um El Niño intenso, a área de sorgo ganha mais espaço

Se vier um El Niño intenso, a área de sorgo ganha mais espaço

Sorgo -Foto Reprodução Blog LongPing High-Tech

 

  • Uma cultura com pouca atratividade até há pouco tempo, agora tem produção recorde
  • Cereal atrai mais os agricultores, e país já está entre os principais produtores mundiais

 

O esperado El Niño, que, segundo expectativas, deve ser um dos mais intensos dos últimos tempos, traz um sério risco de atraso na janela do plantio de soja e, consequentemente, na do milho safrinha.

 

Chuvas irregulares colocariam as duas lavouras fora do calendário ideal de semeadura. Esse quadro de estresse climático abriria uma janela importante para o aumento da área de sorgo, como já ocorreu neste ano, em função de problemas enfrentados pelos produtores, especialmente os de Goiás e de Minas Gerais.

 

"O risco de alteração nas janelas de plantio da soja e do milho existe, mas vamos esperar o plantio da soja e ver como é que vai ser o desenvolvimento dele", diz André Debastiani, coordenador do Rally da Safra, evento anual da Agroconsult que acompanha o desenvolvimento das lavouras de soja e de milho. Ele acredita, no entanto, que o cenário será favorável para uma ampliação da cultura do sorgo.

 

África e Ásia têm as maiores áreas cultivadas, mas com produção de baixo rendimento. Cultivado há várias décadas no Brasil, o produto nunca teve grande importância.

 

Nos anos recentes, porém, vem ganhando espaço. Além do uso na alimentação animal, a gramínea ganha força também na humana e na produção de etanol.

 

A opção pelo sorgo é maior devido às crescentes alterações climáticas que trazem mais incertezas sobre produtividade de outras culturas. Maior resistência à seca, novas pragas no milho e clima cada vez mais incerto levam um número maior de produtores a optar por esse cereal.

 

O mercado interno para o produto também mudou. Em recente entrevista à coluna, Cícero Bezerra de Menezes, pesquisador da Embrapa Milho e Sorgo, afirmou que antes o produtor colhia o cereal e tinha de correr atrás de compradores. Hoje, as empresas é que buscam os produtores.

 

Melhoramento genético, investimentos em adubação e novas sementes puxaram o avanço da cultura. O rendimento melhorou, e a produtividade subiu para 3.600 kg por hectare. No início dos anos 2000, o cereal rendia apenas 1.439 kg por hectare.

 

Comum na alimentação humana na África e na Ásia, os pesquisadores da Embrapa trabalham para que o cereal tenha maior participação na alimentação humana também no Brasil.

 

Quanto ao uso do sorgo como alimento humano, Menezes afirma que é preciso trabalhar com uma variedade com tanino. Ele tem mais amido resistente e entra como se fosse um alimento funcional. O sorgo poderá ser utilizado na produção de pães, massas, bolos, biscoitos, barras de cereais, doces, salgados, bebidas, entre outros. É interessante para a saúde humana porque contém muito antioxidante.

 

Após vários anos com produção insignificante, o cultivo ganha nova dinâmica. Na safra 2022/23, a produção brasileira subiu para 4,8 milhões de toneladas. A deste ano deverá chegar a 7,6 milhões, segundo a Conab (Companhia Nacional de Abastecimento).

 

Nesse ritmo de produção, o Brasil se coloca entre os principais produtores mundiais. Os Estados Unidos lideram, com uma safra de 9 milhões de toneladas, e o Brasil pode passar a Nigéria, que produz próximo de 7 milhões.

 

Além da demanda interna, começa a haver uma abertura do mercado externo para o país. A produção mundial é de 63 milhões de toneladas, e a China, tradicional importadora de produtos brasileiros, busca 7,6 milhões de toneladas do cereal por ano no mercado externo (Folha, 30/6/26)