17/07/2026

Sem China, preço das exportações de carne bovina deve cair, diz Abiec

Sem China, preço das exportações de carne bovina deve cair, diz Abiec

Indústrias devem exportar 10% menos carne bovina em 2026; efeitos serão repassados ao mercado interno — Foto Canva Creative Commons

 

Haverá queda na produção total de carne pelos frigoríficos, por conta da menor demanda externa, o que vai restringir a oferta internamente.

 

Com a China fora do mercado comprador devido ao esgotamento da cota de importação de carne bovina do Brasil em 2026, a demanda global pela proteína brasileira deverá cair e afetar os preços recebidos pela indústria nacional exportadora de forma geral no segundo semestre deste ano.

 

A previsão da Associação Brasileira das Indústrias Exportadoras de Carnes (Abiec) é exportar 10% menos que em 2025, quando embarcou 3,5 milhões de toneladas, com possibilidade de recuo no faturamento, ainda não calculado, por conta do movimento dos preços a partir de julho.

 

Entre janeiro e junho, as vendas chegaram a 1,7 milhão de toneladas, alta de 15,5%, e US$ 9,8 bilhões de faturamento, incremento de 36,2% em relação ao primeiro semestre de 2025. Os preços médios recebidos aumentaram quase 18%, para US$ 5,7 mil por tonelada.

 

“Vimos um movimento de vendas muito positivo para a China, mas com as cotas fez diminuir o ritmo de vendas. Quando o mundo sabe que não tem um grande comprador disponível como a China, todas as negociações diminuem a pressão de preço”, disse Roberto Perosa, presidente da Associação Brasileira das Indústrias Exportadoras de Carnes (Abiec), em coletiva de imprensa nesta quinta-feira (16/7).

 

Os efeitos da diminuição das vendas globais e da queda no preço pago em relação à cotação mais alta que vinha sendo praticada serão repassadas para o mercado interno, disse Perosa, com efeito “em toda a cadeia”. O movimento, ressaltou ele, pode limitar eventuais quedas no preço da carne bovina ao consumidor brasileiro.

 

Na avaliação da Abiec, haverá queda na produção total de carne bovina pelos frigoríficos, por conta da menor demanda externa, o que vai restringir a oferta internamente e elevar os preços ao consumidor nacional no médio prazo.

 

“Em um primeiro momento, pode ter arrefecimento do preço no mercado interno, mas os custos não diminuíram. Deve haver diminuição da produção e, com isso, o preço volta a subir, pois tem menos oferta. É um efeito rebote que estamos vendo”, disse. “Se continuássemos com a mesma quantidade de produção do ano passado, no mercado atual, o preço cairia, mas como não tem destinação, não existem razões para a indústria continuar produzindo para exportação. No médio prazo, deve crescer o preço da carne no mercado interno”, explicou.

 

Perosa disse que a formação de preço da carne no mercado interno depende diretamente do desempenho e da remuneração do mercado externo. “É uma composição. Não temos a mesma demanda global pela carne bovina. É isso que viabiliza a manutenção dos preços no mercado interno.

 

exportação complementa e faz um mix que nos permite não fazer elevação aguda de preços no mercado interno”, completou.

 

Perosa disse que esse “mix” não existe atualmente por conta da interrupção temporária de vendas para a China, principalmente mercado brasileiro. “Com isso, a maioria das indústrias está trabalhando no vermelho”, disse. Ele ponderou que o setor vem de “bons anos” de receita.

 

O executivo disse que todas as indústrias foram afetadas pelo esgotamento da cota para a China e que cada uma tem buscado uma solução individualizada para o cenário atual. Algumas deram férias coletivas, outras fizeram demissões, readequaram seus quadros de funcionários e diminuíram o ritmo de abate para “tentar passar esse período sem demanda forte da Ásia”.

 

“As dificuldades vislumbradas na China, a interrupção temporária para a União Europeia, questões geopolíticas e guerras, devem impactar as exportações brasileiras neste ano. Deve haver queda do preço de exportação, pois não tem tanta disputa pela carne brasileira”, completou (Globo Rural, 16/7/26)

 


Indústria vê grande possibilidade de Brasil parar de vender carne bovina para UE em setembro

Governo tenta negociar um prazo de transição para entregar o controle completo do ciclo de vida dos bovinos e estuda proibir o uso dos insumos — Foto Thiago de Jesus

 

Bloco europeu exige comprovação técnica de não uso de antimicrobianos nos animais.

 

A indústria brasileira de carne bovina vê “grande possibilidade” de as vendas para a União Europeia serem interrompidas a partir de setembro por conta da falta de comprovação técnica de não uso de antimicrobianos nos animais cujos cortes são enviados para o mercado europeu.

 

O governo ainda tenta negociar com o bloco um prazo de transição para entregar o controle completo do ciclo de vida dos bovinos e estuda proibir o uso dos insumos de forma geral no país como sinalização e garantia de cumprimento futuro das exigências para a UE. Pecuaristas são contra e a cadeia ainda tenta encontrar uma solução conjunta para a questão.

 

O presidente da Associação Brasileira das Indústrias Exportadoras de Carnes (Abiec), Roberto Perosa, disse que ainda não há decisão do governo em relação ao pedido de proibição dos antimicrobianos apresentado pelos frigoríficos. Ele ressaltou que apesar de representar cerca de 6% do volume e do faturamento das exportações brasileiras, a UE é um mercado estratégico para a formação de preços internos e para a reputação do produto nacional.

 

“É um mercado com alto valor agregado, que importa cortes que não têm destinação na Ásia e é importante nesse mix. As exportações para lá ajudam a tirar pressão para formação de preço aqui”, disse Perosa em coletiva de imprensa nesta quinta-feira (16/7), acrescentando que atender ao mercado europeu também traz uma reputação “muito grande”. “Quando a UE decide por uma atitude, impacta o restante dos mercados”, afirmou ele na coletiva.

 

“Por mais que o volume não seja tão grande, o impacto que pode vir dessa decisão [a interrupção nas vendas] é global. Temos trabalhado isso com governo e a cadeia para achar uma solução para manter o fluxo comercial para a UE”, completou. O Brasil vendeu 128 mil toneladas de carne bovina para o bloco europeu em 2025, com faturamento próximo de US$ 1 bilhão.

 

Questionado sobre um período de transição, Perosa disse que a medida está em negociação com a UE e que espera que as tratativas governamentais deem “frutos”. Uma eventual interrupção das exportações pode durar, pelo menos, dois anos. Esse é o tempo entre o nascimento e abate dos bovinos que serão monitorados para certificar à UE que não receberam os antimicrobianos.

 

Na semana passada, houve uma reunião ampliada entre frigoríficos, pecuaristas e governo na sede da Confederação da Agricultura e Pecuária do Brasil (CNA) para discutir o tema. O presidente Luiz Inácio Lula da Silva questionou o ministro da Agricultura, André de Paula, na última sexta-feira (10/7) sobre o andamento das conversas com os europeus. A Câmara Setorial de Carne Bovina do Ministério da Agricultura vai debater o assunto na próxima semana.

 

“Os elos da cadeia estão se reunindo para discutir o setor, sem nenhuma definição, para que se possa vislumbrar o que é bom para os elos da cadeia e mitigar os impactos que teriam. É uma construção coletiva de solução, e estamos caminhando para isso”, disse Perosa. Segundo ele, a intenção é apoiar as autoridades brasileiras “para ter essa negociação e que o fluxo comercial com UE não seja interrompido”.

 

Perosa disse que uma eventual interrupção das vendas para a União Europeia se soma ao esgotamento da cota de exportação de carne bovina para a China e tornam o ano de 2026 ainda mais “desafiador” para a cadeia pecuária. A estimativa da Abiec é que o volume das vendas externas recue 10% em relação a 2025, quando atingiu 3,5 milhões de toneladas, e o faturamento das empresas seja afetado pela menor demanda mundial pela proteína.

 

“Temos um ano de 2026 desafiador por conta da implementação das cotas chinesas, dessa negociação que está havendo entre governo brasileiro e União Europeia, com grande possibilidade de não conseguirmos vender mais para a União Europeia a partir de setembro, ter período de adaptação, da fiscalização do governo e da produção brasileira”, afirmou Perosa na coletiva de imprensa.

 

Segundo ele, ainda existem desafios internos, como acesso a crédito e custos de produção que influenciam nos resultados.

 

“É um ano de muita cautela para o setor. Os desafios estão colocados e estamos vendo os efeitos, com plantas dando férias coletivas, outras pensando no layoff (suspensão temporária do contrato de trabalho ou a redução proporcional de jornada e salário)”, disse (Globo Rural, 16/7/26)

 


 

Queda das exportações devem impactar margens dos frigoríficos, aponta Abiec

Trabalhador em frigorífico. Foto Divulgação

 

Entidade explica que a exportação é fundamental para a rentabilidade da indústria.

 

A indústria frigorífica brasileira vai enfrenta um cenário de forte pressão sobre as margens de lucro a partir desse segundo semestre de 2026. Segundo a  Abiec (Associação Brasileira das Indústrias Exportadoras de Carnes), a combinação entre a redução das compras da China, as incertezas em relação ao mercado europeu e o aumento da oferta de carne tem levado a maior parte das empresas a operar no vermelho.

 

Durante a apresentação do Beef Report, o presidente da entidade afirmou que o setor vive um momento delicado após anos de resultados positivos.

"Hoje, a maioria das indústrias está trabalhando no vermelho. Claro que elas vêm de alguns anos positivos, mas o momento atual é de margens negativas", afirmou.

 

De acordo com a Abiec, a redução da demanda internacional diminuiu a concorrência pela carne bovina brasileira, pressionando os preços de exportação. Como consequência, frigoríficos recebem menos pela carne vendida ao exterior, enquanto os custos de produção permanecem elevados.

 

A entidade explica que a exportação é fundamental para a rentabilidade da indústria. Embora cerca de 70% da produção permaneça no mercado interno, são as vendas externas que permitem melhor remuneração para determinados cortes e ajudam a equilibrar a formação de preços.

 

Sem esse mercado aquecido, as empresas devem ter dificuldade para manter suas margens nos próximos meses.

 

Cada frigorífico busca uma estratégia

 

Segundo a Abiec, não existe uma solução única para enfrentar a crise e cada indústria está organizando as suas operações para reduzir os custos de produção.

 

Empresas mais capitalizadas conseguem suportar um período maior de margens apertadas, enquanto outras já recorrem a férias coletivas, redução do ritmo de abates, programas de layoff e, em alguns casos, demissões.

 

A entidade também não descarta um movimento de consolidação do setor, com grupos maiores adquirindo frigoríficos menores que enfrentem dificuldades financeiras.

 

"O que vemos é uma preocupação generalizada. Cada empresa vai adotar a estratégia que considera mais adequada à sua realidade", afirmou o presidente da Abiec.

 

Para o setor, a recuperação das margens dependerá da abertura de novos mercados e da normalização das exportações, especialmente para a China e a União Europeia, que seguem sendo destinos estratégicos para a carne bovina brasileira (CNN, 16/7/26)