Setor de biodiesel critica governo por incentivo a diesel fóssil importado
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- Entidades do setor pedem, desde o início da guerra no Irã, aumento na mistura do combustível de origem vegetal para 16%
- Decisão precisa ser tomada por conselho de política energética do governo, que ainda não deliberou sobre o tema
As duas maiores associações que representam o setor de biocombustíveis intensificaram a pressão sobre o governo federal nas últimas semanas, com críticas à concessão de subsídios para importação de diesel fóssil, enquanto reluta em cumprir o índice de mistura de biodiesel produzido no Brasil.
No pleito encaminhado na semana passada aos ministérios da Fazenda, Casa Civil, Desenvolvimento e Planejamento, a Abiove (Associação Brasileira das Indústrias de Óleos Vegetais) e a Aprobio (Associação dos Produtores de Biocombustíveis do Brasil) argumentam que o biodiesel é, atualmente, mais barato do que o seu equivalente fóssil e importado. O litro do combustível de origem vegetal estava orçado em R$ 5,10, ante R$ 6,20 do diesel fóssil, na cotação até o início deste mês.
A subvenção ao diesel trazido de fora do país foi uma das medidas tomadas pelo governo Lula (PT) para tentar evitar que a guerra de Estados Unidos e Israel contra o Irã aumente o preço do combustível no país —o que pode impactar negativamente a popularidade do presidente às vésperas da eleição. Cerca de 25% do diesel consumido no Brasil é importado.
Segundo as associações, há "falta de isonomia no tratamento de política pública dado ao biodiesel comparativamente ao diesel fóssil".
À frente da "Aliança Biodiesel", a Abiove e a Aprobio lembram que "a reforma tributária estabelece expressamente que é preciso manter diferencial competitivo em favor dos biocombustíveis" em relação aos combustíveis fósseis.
"Além disso, em momentos de mercado nos quais o preço do biodiesel se encontra acima do preço do diesel A (fóssil), nunca se cogitou em utilizar mecanismo de subvenção visando garantir diferencial competitivo", afirmam, em ofício enviado ao governo ao qual a Folha teve acesso.
Na avaliação das associações, o aumento da mistura do biodiesel no produto fóssil seria a melhor saída para controlar o preço. A reivindicação é que o país avance para a mistura obrigatória de 16% de biodiesel, o chamado B16. Hoje o percentual está em 15%.
Essa mudança é definida na lei do Combustível do Futuro, que estabeleceu um cronograma progressivo de aumento ano a ano. Estava previsto que o Brasil passaria de B15 para B16 até o fim de março, o que não ocorreu, por adiamento do conselho.
Por trás da resistência do governo estaria o fato de que, em determinados momentos, o biodiesel fica mais caro que o diesel fóssil, em razão da volatilidade dos preços da soja, principal matéria-prima do biodiesel. Logo, aumentar sua participação na mistura obrigatória pode elevar o custo final ao consumidor no longo prazo, pressionando a inflação.
No lugar de ampliar o uso do biodiesel, os ministérios de Minas e Energia, da Fazenda e do Orçamento decidiram, primeiro, isentar o combustível fóssil de PIS e Cofins (o que também incluiu biodiesel) e, depois, anunciar a subvenção ao fóssil, que chegou, em abril, a R$ 1,52 por litro (para o diesel importado).
"Nossas entidades não estão vindo a V.Sas. solicitar subvenção econômica ao biodiesel. Em nosso entendimento, o mecanismo correto de estímulo ao uso do biodiesel, em substituição ao diesel fóssil, já existe na política pública brasileira: trata-se de cumprir as metas de adição obrigatória. Neste caso, a mistura já deveria estar em 16% (B16)", dizem a Abiove e Aprobio.
Entidades do agronegócio reclamam que o governo optou por ajudar empresas internacionais —sobretudo argentinas, que devem ser as produtoras mais beneficiadas com a medida— em vez de fortalecer a indústria nacional de combustíveis sustentáveis, mercado do qual o Brasil é um dos principais atores no mundo.
Representantes do setor calculam que isso poderia resolver um dos problemas da atual indústria, o alto grau de ociosidade da produção, em torno de 40% de suas fábricas.
Segundo cálculos do agronegócio, apenas com essas fábricas que hoje estão prontas, mas não estão em atividade, seria possível produzir de 4 bilhões a 5 bilhões de litros de biodiesel. Hoje o país importa cerca de 17 bilhões de litros de diesel fóssil por ano.
Com esse incremento na produção, ainda segundo essas entidades, seria possível aumentar a mistura para até 18%. O cenário atual, porém, dizem os produtores, está "gerando competitividade não isonômica em relação ao biodiesel e às custas do contribuinte brasileiro".
"É inegável que um aumento no teor de adição obrigatória de biodiesel no diesel geraria dois efeitos que a subvenção econômica busca entregar: redução de preços do diesel ao consumidor" e "menor dependência de importação de diesel", dizem as associações.
Produtores também defendem o aumento na mistura do etanol na gasolina, hoje em 30%. Os cálculos dão conta de que uma elevação para 32% diminuiria em 5% o combustível que é importado.
O ministro de Minas e Energia, Alexandre Silveira, prometeu que, no caso da gasolina, esse aumento será dado ainda no primeiro semestre deste ano, mas novamente a medida esbarra na necessidade de aprovação pelo CNPE (Conselho Nacional de Política Energética).
Integrantes da pasta afirmam que, para que essa decisão seja tomada, é necessária a conclusão de um estudo de viabilidade, que ainda não está pronto, mas em fase final de elaboração. Nesse estudo também são ouvidos produtores de motores, sobre a eficiência energética com os níveis mais altos de fração vegetal.
Questionado sobre o pedido de aumento da mistura do biodiesel, o MDIC declarou que, "desde 2023, o governo brasileiro vem elevando progressivamente a mistura de bio no diesel, que passou de 10% para 15% nesses três anos, em linha com o Programa Combustível do Futuro" e de demais políticas federais de descarbonização.
Sobre o cronograma de novas elevações, a pasta sugeriu procurar o Ministério de Minas e Energia, que não respondeu ao pedido da reportagem. A Casa Civil e a Fazenda também não se pronunciaram.
O biodiesel é feito a partir de matérias-primas orgânicas. Seus principais insumos são óleos de soja, palma, girassol, canola e algodão. O setor estima que o aumento de um ponto percentual na mistura do diesel geraria um acréscimo de cerca de 1 bilhão de litros adicionais de biodiesel por ano, movimentando um mercado estimado entre R$ 5 bilhões e R$ 6 bilhões anuais (Folha, 23/4/26)

