Ter commodities é poder, mas o País ainda não percebeu isso
Uma ordem mundial estável requer objetivos compartilhados e equilíbrio entre grandes potências como a China (na foto, contêineres no Porto de Qingdao) Foto: AFP
Por Marcos Jank e Braz Baracuhy
Na nova geopolítica das commodities, a diplomacia é um ativo estratégico do Brasil.
O mundo atravessa três grandes transformações geopolíticas, e o Brasil tem a oportunidade de se posicionar como provedor líquido de segurança econômica global no suprimento agrícola, mineral e energético.
A primeira transformação é o novo equilíbrio de poder global: a transição do mundo unipolar, centrado nos EUA desde o fim da Guerra Fria, para o mundo bipolar da competição EUA-China.
Na última década, a distância de poder entre os dois países diminuiu e o hiato entre eles e o resto do mundo cresceu nas dimensões econômica, tecnológica e militar. Hoje, EUA e China são as únicas potências capazes de moldar o sistema internacional, redesenhando o mapa geoestratégico mundial.
O desafio estratégico chinês já dura mais de uma década e cria múltiplas zonas de atrito: a influência econômica global da China, inclusive no Hemisfério Ocidental; a visão de uma Eurásia integrada pela Nova Rota da Seda; a supremacia nos mares da China Meridional e Setentrional, artérias vitais do comércio; e a “parceria sem limites” com a Rússia, firmada em 2022, com implicações para a Europa, o Oriente Médio, a Ásia e o Ártico.
A segunda transformação é o fim da ordem liberal internacional, universalizada no “momento unipolar” do pós-Guerra Fria, e o início de um reordenamento bipolar impulsionado pelas duas grandes potências.
Uma ordem mundial estável requer objetivos compartilhados e equilíbrio entre grandes potências — condições que hoje faltam. A rede multilateral de instituições e regras perdeu seu lastro geopolítico. No seu lugar surgem ordenamentos parciais, novas coalizões e esferas comerciais e tecnológicas fragmentadas, criando os contornos de uma ordem mundial desarticulada.
A terceira transformação é a passagem da globalização econômica liberal para a bi-globalização geoeconômica — calcada na competição geopolítica e na segurança econômica. O comércio, os investimentos e as cadeias de suprimento passam a refletir as linhas divisórias da rivalidade entre grandes potências.
A integração global dos mercados cede espaço a imperativos de segurança. O uso de restrições a exportações de minerais críticos em disputas comerciais e a vulnerabilidade de “chokepoints” como o Estreito de Ormuz demonstram que o controle dos fluxos globais de commodities é agora parte central do jogo internacional.
Nesse cenário, ter commodities é poder. Do acesso ao alimento à transição energética, passando pelo suprimento de componentes vitais para as indústrias de alta tecnologia e de defesa, as commodities ganham caráter estratégico renovado. E sua produção está concentrada em poucos lugares do mundo, tornando o comércio internacional uma necessidade em um mundo onde os países hoje buscam suprimento estável e confiável.
O Brasil está em posição privilegiada para se tornar um provedor global de segurança alimentar, mineral e energética. As commodities respondem por 75% da pauta exportadora brasileira — US$ 263 bilhões de um total de US$ 350 bilhões em 2025.
Temos commodities bem consolidadas no mercado mundial: soja (60% das exportações mundiais), milho (20%), carne bovina (25%), carne de frango (30%), açúcar (50%), café (31%), suco de laranja (68%), algodão (33%), celulose (25%), petróleo (5%), minério de ferro (20%) e nióbio (80%).
Avançamos muito em biocombustíveis, mas esse mercado internacional ainda é incipiente no mundo. Temos, porém, vulnerabilidades relevantes em fertilizantes, derivados de petróleo, minerais críticos (incluindo terras raras) e infraestrutura. Mas em todos esses segmentos o Brasil conta com imensas reservas inexploradas e enorme potencial de crescimento.
Na nova geopolítica das commodities, a diplomacia é um ativo estratégico do Brasil. Em meio a tantas transformações, criar as condições políticas internacionais — por meio de alianças, acordos, parcerias e relacionamentos estratégicos — é essencial para inserir o Brasil como ator decisivo no jogo que se desenha para a segurança econômica global (Marcos Jank, professor de agronegócio global do Insper.
Em coautoria com Braz Baracuhy, diplomata e especialista em geopolítica. Vai lançar o livro Geopolítica Global: o Mapa Estratégico do Mundo Contemporâneo em 13/08 no Insper. Escreve aqui em caráter pessoal; Estadão, 27/6/26)

