06/07/2026

The Economist: A ascensão das marcas chinesas entre os brasileiros

The Economist: A ascensão das marcas chinesas entre os brasileiros

Fernanda Lima e Rodrigo Hilbert são embaixadores da marca Geely no Brasil. Foto Divulgação Geely

 

Empresas chinesas lideram investimentos estrangeiros no Brasil; em 2025, foram pelo menos US$ 6 bilhões injetados em diferentes setores.

 

Fernanda Lima e Rodrigo Hilbert são conhecidos como o “casal queridinho do Brasil”. Ela é uma apresentadora de televisão. Ele é um faz-tudo charmoso que apresenta programas de culinária e reformas. Seus filhos gêmeos são modelos. E agora toda a família é embaixadora da marca Geely, uma fabricante chinesa de veículos elétricos. “Uma família bonita como essa tem uma influência real aqui no Brasil”, sorri Jianjun Chen, da Renault Geely, a filial brasileira da empresa. “Chegamos ao Brasil apenas no ano passado, então temos de acelerar o marketing.”

 

As marcas chinesas tornaram-se onipresentes no País. Brasileiros abastados dirigem carros da BYD, usam celulares da Huawei, assistem a televisores da Hisense, pedem comida pelo aplicativo de entrega 99Food e compram online na Shopee. Em 2025, empresas chinesas investiram pelo menos US$ 6 bilhões no Brasil, segundo dados coletados de divulgações corporativas pelo American Enterprise Institute, um think tank de Washington, e pelo Conselho Empresarial China-Brasil. Isso representou mais de 10% de todos os grandes investimentos no exterior. E foi mais do que empresas chinesas investiram em qualquer outro país estrangeiro.

 

Os investimentos na indústria manufatureira superaram os investimentos em petróleo e mineração. Em agosto, a Great Wall Motors (GWM) iniciou a produção em uma fábrica anteriormente pertencente à Mercedes-Benz. Em outubro, a BYD inaugurou uma fábrica de US$ 1 bilhão, a maior fora da Ásia, no terreno de uma antiga fábrica da Ford, no Nordeste do Brasil. A Geely adquiriu uma participação de 26% na Renault Brasil, que já tem uma fábrica no sul do País. A BYD e a GWM foram as marcas de automóveis que mais cresceram no Brasil no ano passado, com a Chery, outra concorrente chinesa, logo atrás.

 

Essas empresas estão investindo pesado em marketing. Para promover seus SUVs premium, a Chery contratou Bruna Marquezine, atriz e modelo, por um valor estimado em R$ 10 milhões (cerca de US$ 2 milhões). Além da parceria com a família Lima-Hilbert, a Geely patrocinou o reality show “Big Brother Brasil”. “Foi o melhor investimento que fizemos este ano até agora”, afirma Chen. A BYD pagou para que seus carros aparecessem em duas novelas de horário nobre. Em um episódio, o motorista de um dos protagonistas ricos da novela compra um BYD para si mesmo, dizendo aos telespectadores: “Carros elétricos são para todos. Não são só para ricos!”.

 

Ultimamente, essas e outras empresas chinesas vislumbraram uma nova oportunidade: fornecer baterias de grande porte para redes elétricas. Espera-se que o primeiro leilão de baterias do Brasil, previsto para dezembro, arrecade US$ 1,5 bilhão em investimentos em células projetadas para armazenar o excedente de energia de painéis solares e turbinas eólicas, e alimentar data centers.

 

Em 17 de junho, a BYD anunciou que sua próxima fase de investimentos no Brasil seria em baterias. Daniel Abdo, da Sigma Lithium, a maior empresa de lítio do Brasil, afirma que a principal mina da empresa em Araçuaí, Minas Gerais, tem estado “lotada de visitantes chineses”. Muitos deles têm em mente o armazenamento em escala de rede.

 

Estados Unidos. Mas também está alinhado com as prioridades internas da China. No início dos anos 2000, suas empresas investiram na América Latina para garantir recursos naturais; na década de 2010, construíram muita infraestrutura para facilitar a exportação do excedente de aço.

Agora, a China busca regiões onde possa dominar os setores de alta tecnologia. “Toda a atenção da nossa sede, todos os nossos recursos, estão voltados para o Brasil”, afirma Matheus Benatti, da Hisense Brasil. Atilio Rulli, diretor de relações públicas da Huawei Brasil, diz que, neste ano, o Brasil será o país que gerará mais receita para a Huawei, com exceção da China.

 

O bom relacionamento entre os governos do Brasil e da China é um fator importante. A China é o maior parceiro comercial do Brasil desde 2009, quando ultrapassou os Estados Unidos. Em 25 de junho, o ministro da Fazenda, Dario Durigan, anunciou que o Brasil tomaria empréstimos em yuan pela primeira vez.

 

Em abril, o governo de Luiz Inácio Lula da Silva foi acusado de demitir um funcionário do Ministério do Trabalho por incluir a BYD em uma lista de empregadores acusados de submeter trabalhadores a condições análogas à escravidão (o governo alegou que se tratava de uma mudança de pessoal de rotina).

 

Em 2024, a polícia brasileira resgatou mais de 160 trabalhadores chineses trazidos para construir a fábrica da BYD na Bahia, que viviam em condições precárias e recebiam salários baixíssimos. A BYD afirmou desconhecer as condições e culpou uma subcontratada; a empresa alega ter corrigido as irregularidades.

 

Os brasileiros comuns também estão se mostrando mais receptivos à China. Cada vez mais, a consideram a maior potência tecnológica do mundo. Cerca de metade dos brasileiros acredita que a China lidera o mundo em inteligência artificial, em comparação com 39% que acham que os Estados Unidos estão à frente, segundo uma pesquisa da Public First, consultoria sediada em Londres. “No passado, os consumidores tinham reservas em relação às marcas chinesas”, reconhece Andy Fang, da Huawei Brasil. Isso mudou.

 

Muitos brasileiros desconfiam de Donald Trump. Em maio, ele e Lula tiveram um encontro amistoso na Casa Branca. Mas, dias depois, Jamieson Greer, representante comercial dos Estados Unidos, defendeu tarifas de 25% sobre muitas exportações brasileiras. Os brasileiros veem a justificativa de Greer — “práticas comerciais desleais” — como uma cortina de fumaça para o protecionismo. Em 18 de junho, Trump declarou ao Axios, um site de notícias, que “não dava a mínima” para Lula.

 

Os investidores chineses não se deixam abalar pelas eleições gerais brasileiras de outubro. “O setor privado é muito mais importante para impulsionar essa relação do que qualquer coisa relacionada aos governos”, afirma Hsia Sheng, da Fundação Getúlio Vargas. “Se a eleição fosse relevante, os investimentos teriam parado, mas está acontecendo o contrário.” Isso pode ser uma má notícia para Trump, que parece acreditar que, se o rival de direita de Lula chegar ao poder, o País afrouxará seus laços com a China. “Francamente, não há ninguém no governo americano que entenda o Brasil agora”, diz um analista. E isso fica evidente (The Economist, 4/7/26)