16/09/2026

Torcida petista por Moraes custará a eleição de Lula

Torcida petista por Moraes custará a eleição de Lula

O ministro Alexandre de Moraes durante a sessão plenária extraordinária do STF. Foto Rosinei Coutinho/Divulgação STF

Por Mariliz Pereira Jorge    

·         Comemorar o bate-boca no plenário só demonstra que ninguém ali está preocupado com a gravidade das denúncias

·         Crise no STF também expõe a incapacidade da base aliada de ler o humor da população

A torcida dos petistas por Alexandre de Moraes custará a eleição a Lula. A cegueira da esquerda beira o suicídio político. Comemorar o bate-boca no plenário como uma torcida organizada só carimba na testa do eleitor médio a certeza de que ninguém ali está preocupado com a gravidade das denúncias contra o ministro do STF.

corrupção voltou a ser a segunda maior preocupação do brasileiro, apenas atrás da segurança pública, segundo pesquisa da Quaest. É nesse espaço que entra o escancarado tráfico de influência dentro do Supremo. Se no imaginário bolsonarista o STF já tinha a credibilidade no ralo, no caso do eleitor sem paixões ideológicas —aquele que define o pleito— essa percepção pode mudar agora. Ele tende a ser empurrado para a extrema direita quando não enxerga no governo, em seus candidatos e aliados, a mesma indignação que sente.

Do taxista à faxineira, na mesa de bar ou nos grupos de WhatsApp, o assunto desta terça (15) foi um só. A campanha eleitoral foi escanteada, embora o terremoto vá desabar sobre as urnas. Ainda que pese o fato de o timing das ações de André Mendonça soar como clara tentativa de interferência na disputa, a conta cairá no colo de Lula por não se posicionar firmemente para que Moraes seja investigado.

Mesmo que o presidente não apareça implicado em nenhuma denúncia, não dá para dizer o mesmo sobre seu filho. Essa pizza que começa a ser assada em Brasília com o pedido de vista de Flávio Dino, ministro ideologicamente à esquerda, só vai piorar o apetite das ruas e envenenar a campanha petista.

De toda a lambança que vi nesta sessão histórica, com uma coisa tenho de concordar com Gilmar Mendes: até a máfia tem ética. Ao contrário do STF, que abandonou os princípios republicanos, seus códigos de honra e os limites bem delineados de atuação. Essa crise escancara não só o esfacelamento das instituições, mas também expõe a incapacidade da base aliada de ler o humor da população. A esquerda, que insiste em incensar um ministro enrolado em maracutaia até o pescoço, não entendeu que será cobrada por seu apoio nas urnas (Folha, 16/9/26)


Com metade do STF sob suspeita, campanha de impeachments ganha força

Plenário do Supremo Tribunal Federal durante sessão nesta terça-feira (15) - Rosinei Coutinho/AFP

Por Vinicius Torres Freire

·         Ministros dizem que existe 'PF paralela' e se acusam de crimes graves ao vivo

·         Há cada vez mais excelências suspeitas e não se decide método para investigá-las

A guerra no STF vai continuar. A demolição institucional e moral do sistema de Justiça também. A campanha a favor de impeachment das excelências supremas vai ganhar força, assim como as candidaturas ao Senado que querem cortar cabeças no Supremo.

Há indícios, mais ou menos escandalosos, de que quatro ministros estariam envolvidos com Daniel VorcaroAlexandre de MoraesDias ToffoliKassio Nunes Marques e André MendonçaLuiz Fux está sob risco.

Dado que os supremos não conseguem ou querem decidir como devem investigar a si mesmos, o que vai acontecer com esses ministros em estado de suspeição ou putrefação política? Não vai haver consequência? O que vai fazer a Procuradoria-Geral? A Polícia Federal terá de ficar inerte?

Mais grave, como se fosse possível, Fux e Mendonça disseram existir uma "PF paralela". Como a "Abin paralela" de Jair Bolsonaro? Eles têm indícios de que existe grupo clandestino na PF? Isso é subversão, no mínimo.

Gilmar Mendes e Flávio Dino disseram que Edson Fachin estava à beira de "restabelecer" um monstrengo, o poder do STF de chamar para si caso de qualquer instância, criado em 1969 e maquiado em 1977, quando Ernesto Geisel tentava prolongar a ditadura.

Esse monstro, a tal "avocatória", além de autoritário, abriria "uma avenida de corrupção no Judiciário", que está corrompido como nunca se viu, afirmou Dino, de resto. Até o voto de Mendonça, às 17h15, ninguém havia defendido Fachin, isolado e perdido.

Nunes Marques disse que era "isento", mas daria o fora de uma votação que teria implicação político-eleitoral: tinha de manter sua isenção no TSE. Mas Kassio votou com Mendonça para decapitar a direção da PF e disse na terça coisas que podem ser usadas por advogados para libertar Vorcaro.

Gilmar Mendes disse que Mendonça estava "a serviço de um grupo político que quis dar um golpe neste país" (o bolsonarismo) e de manipular a PF, secundado por Moraes.

Quanto à eleição, neste momento os riscos de danos continuam maiores para Luiz Inácio Lula da Silva, a depender do tamanho da sujeira que possa ser descoberta sobre outros ministros do STF.

A comoção contra o "sistema" favorece Flávio Bolsonaro. A maioria larga dos revoltados antissistêmicos já vota no candidato das direitas e da extrema direita. No entanto, o resultado da batalha desta terça vai passar a impressão ou certeza de chicana, oportunismo, diversionismo e cinismo no STF, em especial por causa de Moraes.

Os nem-nem, que em 2022 estiveram com Lula contra Bolsonaro, podem debandar. A tendência já está evidente entre pessoas mais públicas do minúsculo centro. Pode ser o caminho desse grupo inteiro.

"Pode". A luta mortal vai continuar. Desde a manhã, ao longo desta terça, vazavam indícios que associam Mendonça e Nunes Marques a Vorcaro. Além de mais vazamentos, pode haver batidas policiais, determinadas pelos próprios ministros.

A depender de qual lixo vai ser revirado, e como, o "outro lado" (qualquer lado) pode ser ainda mais coberto de imundície, com ou sem razão, o que pode mudar votos.

As excelências se insultaram, como é de praxe desde 2009. Injúria, calúnia e difamação no STF estão perto da maioridade legal. Os ministros se acusaram de crimes, de criar "ambiente de máfia", de "máfia sem ética", de mentir, de manipular processo, de "falta de noção" em liminar, de "indecência", de "desfaçatez", de "covardia".

É. Fim (Folha, 16/9/26)