04/11/2026

Trump sentirá na urna o efeito que sua política provocou no campo

Trump sentirá na urna o efeito que sua política provocou no campo

 Retratos do presidente dos EUA, Donald Trump, e da secretária de Agricultura, Brooke Rollins, em feira agrícola em Washington - Al Drago/28.jun.26/Getty Images/AFP

 

Por Mauro Zafalon

 

  • Tarifas inibem exportações agrícolas e trazem pesados custos para dentro do país
  • Produtores perdem renda, e republicanos temem a ausência deles na votação

 

Os Estados Unidos vão às urnas nesta terça-feira (3). Boa parte dos demônios que afligem Donald Trump e os republicanos no pleito vem do campo. Os produtores rurais representam apenas 2% da população dos Estados Unidos, mas costumeiramente têm um peso grande no apoio ao partido do atual presidente.

 

O agronegócio viveu um período de queda de preços internacionais, mas Trump tem boa participação no alto patamar de endividamento, no aumento de falências e na perda de renda dos produtores. A política do presidente dos Estados Unidos, inicialmente apoiada pelos agricultores, que acreditavam em ganhar mais mercado para seus produtos, surtiu efeito contrário.

 

A aplicação de tarifas nas importações travou as exportações do agronegócio do país e trouxe elevados custos à população. A volta atrás nessa aplicação de taxa acabou sendo, em alguns casos, ainda mais prejudicial. É o caso da carne bovina. Para reduzir o peso da inflação no bolso do consumidor, Trump liberou importações de 300 mil toneladas da proteína animal, complicando ainda mais a situação do pecuarista americano, que acusa queda dos preços no campo.

 

A batalha de tarifas implementada pelo governo afetou fortemente as finanças do produtor. No primeiro mandato de Trump, o governo teve de injetar US$ 23 bilhões em subsídios no campo para reduzir os efeitos negativos de sua política. Neste novo mandato, a Casa Branca voltou a prometer bilhões em subsídio para compensar as perdas.

 

Os números indicam as dificuldades. Em 2022, os americanos obtiveram US$ 196 bilhões com exportações do agronegócio. Em 2025, foram US$ 171 bilhões, e uma das responsáveis pela queda foi a China, que reduziu as compras no mercado americano de US$ 24 bilhões, em 2024, para US$ 8,3 bilhões, em 2025.

 

Problemas internacionais no setor do agronegócio, mais a política desastrada de Trump, levaram os produtores americanos a conviver com o quinto ano seguido de perda de renda, ter dificuldades em financiamentos e ver as falências agrícolas aumentar 19% neste ano em relação a 2025.

 

Além dos efeitos adversos trazidos pelas tarifas impostas pelo governo, os produtores rurais dos Estados Unidos ganharam novas pressões, vindas da guerra no Irã. Levado pelo primeiro-ministro de Israel, Benjamin Netanyahu, Trump entrou em um conflito com os iranianos esperando o fim em apenas uma semana. Ele continua até hoje, e as medidas do Irã trouxeram pesado ônus para os produtores mundiais, principalmente para os dos Estados Unidos.

 

O preço do diesel, insumo importante na produção agropecuária, está com alta de 110% neste ano. A logística ficou mais cara, o preço dos fertilizantes mudou de patamar, e os produtores americanos afirmam que, enquanto os insumos sofrem alta acelerada, os produtos agrícolas não acompanham essa valorização.

 

Os produtores americanos destacam, ainda, a vitória de Lula sobre Flávio Bolsonaro. A política econômica do presidente reeleito torna os produtos brasileiros mais competitivos do que os americanos no mercado internacional, principalmente por causa do câmbio. Com isso, aumenta o percentual de produtores que acreditam que o país está indo na direção errada, o que deve afetar as eleições desta terça-feira. Além de um eventual aumento dos votos nos democratas, os republicanos se preocupam com a possível ausência dos seus eleitores (Folha, 4/11/26)