14/10/2026

Um agro cada vez mais forte – Editorial O Estado de S.Paulo

Um agro cada vez mais forte – Editorial O Estado de S.Paulo

Para ampliar suas conquistas, o agronegócio brasileiro precisa de pesquisa, infraestrutura, linhas de crédito acessíveis aos produtores e compromisso ambiental

 

O agronegócio brasileiro é uma história de sucesso. Em 2025, respondeu por quase metade das exportações nacionais, com vendas de US$ 169,2 bilhões ao exterior. Ano após ano, o setor dá uma contribuição decisiva à economia, alcança novos recordes de produção e faz do Brasil uma potência mundial no setor. Mas é possível ir além.

 

O Brasil produz com eficiência dentro da maioria de suas fazendas, mas perde parte dessa vantagem quando precisa levar a safra aos mercados externos e internos. A precariedade das estradas e portos encarece o transporte, enquanto a falta de armazéns obriga muitos produtores a escoar a safra em condições desfavoráveis. É um velho problema que atravessa governos sem solução à altura.

 

Um exemplo é a Ferrogrão, projetada há mais de uma década para ligar a produção agrícola do Centro-Oeste aos portos do Norte, que ainda não saiu do papel. A ferrovia poderia reduzir os custos de transporte, hoje muito dependente das rodovias, e diminuir as emissões de poluentes.

 

O Estado tem responsabilidade nisso. Um setor exposto às intempéries, às oscilações das safras e a uma concorrência internacional acirrada precisa de condições adequadas de financiamento e de instrumentos para administrar seus riscos. Boas linhas de crédito e seguro rural são necessárias. E convém lembrar que o Brasil está entre os países que menos subsidiam seus produtores, segundo a Organização para Cooperação e Desenvolvimento Econômico (OCDE).

 

Não seria razoável exigir que o agricultor brasileiro competisse em condições desiguais com produtores de países que recebem apoio público muito mais generoso.

 

Aliás, o sucesso do campo brasileiro é uma demonstração do que o poder público pode fazer quando acerta a mão. A Empresa Brasileira de Pesquisa Agropecuária (Embrapa) é talvez o melhor exemplo. Em grande medida, foi graças à ciência desenvolvida pela Embrapa que o Cerrado se transformou numa das principais regiões produtoras do planeta. Hoje, no entanto, a empresa enfrenta restrições de recursos.

 

Para este ano, dispõe de R$ 371,5 milhões para pesquisa e manutenção, ante os R$ 500 milhões considerados necessários pelo próprio órgão. É um contrassenso que uma instituição tão importante para a economia nacional tenha de lutar por verbas para manter suas pesquisas.

 

O agro que queremos também precisa ser reconhecido internacionalmente por suas boas práticas ambientais. Há quem ainda insista em avançar sobre a vegetação nativa como se a devastação fosse requisito para produzir. Infratores precisam ser punidos com rigor pelo poder público. Além dos danos que causam ao meio ambiente, oferecem um pretexto conveniente para que concorrentes estrangeiros reivindiquem barreiras contra os produtos brasileiros.

 

Não é admissível que a motosserra de alguns comprometa o trabalho de tantos. O mesmo vale para os que ainda submetem trabalhadores a condições análogas à escravidão.

 

Também não basta produzir mais do mesmo. O Brasil precisa aproveitar melhor o que sai de suas fazendas, aproximando o campo da indústria e agregando valor aos produtos que exporta. Há espaço para avançar na produção de alimentos processados, bioinsumos e biocombustíveis, área em que o País já tem posição importante.

 

O setor dispõe, aliás, de uma das bancadas mais poderosas e atuantes do Congresso. Não lhe falta capacidade de articulação para defender seus interesses e obter atenção do poder público. Seria bom que parte dessa força fosse empregada na construção de políticas duradouras, no fortalecimento da pesquisa e na solução dos problemas de infraestrutura que há décadas prejudicam a produção.

 

Flexibilizar regras ambientais pode até render dividendos políticos imediatos, mas dificilmente ajudará o agro brasileiro a conquistar novos mercados.

 

O agro que queremos é mais moderno, mais atento ao meio ambiente e às exigências dos consumidores, sem perder a capacidade de competir com os melhores do mundo (Estadão, 14/10/26)