Um encontro amistoso, mas opaco, entre Lula e Trump
Editorial Folha de S.Paulo
- Silêncio da Casa Branca e relatos apenas de Lula nublam os reais interesses dos EUA no Brasil
- Somente acordos bilaterais e parcerias estratégicas em curto e médio prazos entre os países trarão resultados concretos à conversa
Qualquer conclusão sobre o encontro, na quinta (7), entre os presidentes Luiz Inácio Lula da Silva (PT) e Donald Trump na Casa Branca não passará de exercício açodado.
As versões públicas emitidas apenas pelo governo brasileiro e a falta de acordos bilaterais, somadas ao caráter imprevisível do americano, denotam incertezas.
Nenhuma conversa oficial entre líderes estende-se além do previsto —neste caso, por três horas— sem uma pauta relevante e o interesse de ambos os lados em melhorar as relações.
Fato é que tal objetivo sobreviveu aos desatinos do republicano —do aumento de tarifas, passando pela invasão da Venezuela e a guerra dos EUA contra o Irã, até as ameaças de Trump contra a Colômbia e a edição de sua doutrina para expandir o domínio de Washington na América Latina.
O Itamaraty foi hábil em cancelar a entrevista coletiva no Salão Oval, convertida em arapuca do americano para os líderes de Ucrânia, África do Sul e Canadá. Mas a medida gerou interrogações sobre os interesses reais de Trump e as exigências a Lula.
Uma exceção foi a abordagem do brasileiro a respeito do tarifaço, claramente aplicado como retaliação do americano à condenação de Jair Bolsonaro (PL) por sua tentativa de golpe. Trump concordou em reavaliar o tema nos próximos 30 dias.
Lula acenou com o acesso de empresas americanas às jazidas brasileiras de minerais críticos, especialmente às de terras raras.
Explorou, assim, a necessidade de Washington de garantir alternativas à China para o fornecimento dos insumos a suas indústrias de tecnologia e defesa.
Se realmente reiterou a Trump a exigência do Brasil a investidores estrangeiros de agregar valor aos minerais no país, por princípio de soberania, dúvidas surgem sobre qual será a reação dos EUA. Mas sabe-se que defesa da soberania não comove Trump.
Há de considerar a prudência de Lula ao afastar da conversa a intenção de Trump de designar as facções PCC e CV como organizações terroristas. Preferiu entregar a proposta de criação de um grupo de países para tratar do crime organizado.
Os elogios trocados entre os presidentes pouco dizem sobre o futuro das relações bilaterais entre Brasil e EUA num momento de incertezas geopolíticas —parte delas causadas por Trump.
Somente acordos e parcerias estratégicas darão uma resposta definitiva. Sem tais desdobramentos em curto e médio prazos, o encontro jamais extrapolará a imagem do aperto de mão, a ser usada como aprouver a cada lado (Folha, 9/5/26)

