Um plano ‘quinsemanal’ para o agro - Por Pedro de Camargo Neto
Pedro de Camargo Neto. Foto Arquivo Pessoal
A China planeja cinco anos. O Brasil discute a próxima semana.
O 15.º Plano Quinquenal da China (2026–2030) incluiu a segurança alimentar no núcleo da estratégia nacional chinesa, ao lado da modernização agrícola, da biotecnologia e da diversificação das fontes de proteína. Os planos quinquenais orientam investimentos, crédito, pesquisa e políticas públicas desde a década de 1950.
O tema ganhou repercussão no agro brasileiro. Trata do principal mercado para diversos produtos que exportamos. A reação imediata foi defender a diversificação de mercados. Com certeza. Mas a concentração atual não foi escolha. Decorreu do extraordinário crescimento da demanda chinesa, impulsionado pelo aumento da renda, urbanização e mudança dos hábitos alimentares de sua população.
No passado, os estudos de planejamento alimentar estiveram concentrados nas projeções da Organização das Nações Unidas para a Alimentação e a Agricultura (FAO). Seus números continuam impressionantes. A população mundial deverá se aproximar de 10 bilhões de pessoas até 2050. A produção agrícola precisará crescer entre 50% e 60%. A demanda por proteínas animais continuará aumentando. O mundo precisará produzir mais alimentos.
A FAO nunca se dispôs a explicar se haverá renda nas populações carentes por alimentos. O desafio de produzir com menor custo permanece. Foi parte do sucesso brasileiro. O Brasil precisaria ao menos de um plano para as próximas cinco semanas.
Primeiro, recuperar a capacidade de produzir. O Plano Safra será anunciado em meio a uma combinação preocupante de fatores. O risco climático cresce, a possibilidade de um forte El Niño aumenta as incertezas e o setor enfrenta uma crise de endividamento provocada pela combinação de juros reais incompatíveis com a atividade agropecuária, preços internacionais enfraquecidos e os efeitos ainda presentes da pandemia e de duas guerras.
Chama atenção a questão do seguro rural. Sem seguro, as perdas climáticas não desaparecem. Apenas mudam de endereço. Saem das lavouras e passam para os balanços dos produtores, das cooperativas, dos bancos e, mais cedo ou mais tarde, do próprio governo.
Seguro rural não é privilégio. É infraestrutura financeira básica para uma atividade sujeita a riscos que nenhum produtor consegue controlar.
Segundo, o custo do dinheiro. É impossível compreender a crise atual sem considerar os juros. Em março de 2021, a Selic estava em 2% ao ano. Poucos anos depois alcançou 15%, o maior patamar desde 2006. Nenhuma atividade produtiva atravessa mudança dessa magnitude sem consequências.
Ao mesmo tempo, o setor passou por profunda transformação financeira. O crescimento das Cédulas de Produto Rural (CPRs) e de outras modalidades privadas ampliou o acesso a recursos, mas também a exposição ao custo do capital. O debate sobre o custo fiscal da atual renegociação concentra-se nos subsídios implícitos às taxas de juros. Inaceitável ignorar a origem do problema.
Terceiro, produzir mais e melhor. China e FAO colocam a pesquisa no centro da discussão. No Brasil, o tema desapareceu do debate nacional. Escondida atrás do extraordinário sucesso do passado, a Embrapa perdeu a capacidade de apresentar ao País uma agenda clara para os próximos anos.
A Embrapa continua reunindo pesquisadores de excelência e permanece como uma das instituições mais importantes da história econômica brasileira. O problema não está no passado. Está no futuro. Quais serão as prioridades nacionais em genética, adaptação climática, agricultura digital, bioeconomia e produtividade sustentável? Quais resultados concretos pretendemos entregar ao campo nos próximos cinco anos? E não basta falar em recursos financeiros. Essencial enfrentar problemas de gestão.
Quarto, infraestrutura. A produção brasileira de grãos atingiu 343 milhões de toneladas em 2025. A infraestrutura não acompanhou. Estradas, ferrovias, hidrovias, portos e armazéns seguem operando sob crescente pressão. Num ambiente de preços mais apertados, poucos reais por tonelada definem quem permanece competitivo.
Os gargalos vão além do transporte. O País dispõe de aproximadamente 202 milhões de toneladas de capacidade estática para uma produção superior a 340 milhões. Seguimos convivendo com problemas que já deveriam ter sido resolvidos. A margem está cada vez mais na infraestrutura.
Quinto, energia. A COP-30 foi incapaz de produzir uma estratégia brasileira clara para a transição energética. Enquanto o País sediava a principal conferência climática do mundo, os biocombustíveis permaneceram em segundo plano. Avançamos na questão do desmatamento. Mas biocombustíveis também é clima.
A recente escalada das tensões no Oriente Médio lembrou mais uma vez uma realidade: petróleo e gás continuam ativos estratégicos da economia mundial. Poucos países possuem vantagens comparativas tão evidentes nos biocombustíveis. Construímos uma das matrizes de transporte mais limpas do planeta com etanol e biodiesel. Mesmo assim, avançamos lentamente em combustíveis sustentáveis para aviação e navegação. Não existe uma estratégia consistente para transformar liderança tecnológica em liderança global.
A China planeja cinco anos. O Brasil discute a próxima semana. Infelizmente, não temos sequer um plano quinsemanal (Pedro de Camargo Neto foi presidente da Sociedade Rural Brasileira e secretário do Ministério da Agricultura e Pecuária; Estadão, 30/6/26)

