Uma máfia no coração do poder – Editorial O Estado de S.Paulo
A prisão do banqueiro Vorcaro escancara uma rede criminosa espalhada por Brasília. Atônito, o País espera que a banda podre das instituições não prevaleça sobre a banda republicana.
A política brasileira costuma ser descrita como um duelo entre esquerda e direita ou uma disputa entre Executivo, Legislativo e Judiciário. O escândalo do Banco Master expõe uma clivagem menos confortável: uma rede perniciosa que atravessa partidos, governos e tribunais.
O esquema de ocultação de recursos, manipulação societária e deslocamento de patrimônio para escapar de credores e reguladores que desencadeou o colapso do Master deixou prejuízos multibilionários que acabaram socializados entre investidores e mecanismos de proteção do sistema financeiro.
Se a magnitude desses crimes do colarinho branco já não fosse por si só estarrecedora, a investigação da Polícia Federal que ensejou a prisão do controlador do banco, Daniel Vorcaro, deu ao País um vislumbre – e só um vislumbre – de uma mecânica mafiosa de proporções imensas.
Mensagens extraídas de celulares apreendidos mostram a discussão de planos para vigiar adversários, intimidar críticos e até espancar jornalistas. Há indícios de invasão de sistemas da própria Polícia Federal e outros órgãos da Justiça para obter informações sobre investigações em curso. Dirigentes do Banco Central do Brasil teriam recebido propina para facilitar operações e neutralizar a fiscalização.
Mas muito mais perturbadoras do que a delinquência do banqueiro corrupto e seus comparsas são as relações que Vorcaro construiu em Brasília. Vorcaro não era um aventureiro isolado. Transitava com desenvoltura entre ministros de Estado, dirigentes partidários, parlamentares e juízes das altas cortes. Isso ajuda a explicar por que se sentia tão à vontade para maquinar crimes em grupos de WhatsApp.
Suas relações promíscuas chegam ao coração do sistema de Justiça. O ministro Dias Toffoli, que chegou a fazer negócios com as redes de Vorcaro, assumiu, em circunstâncias estranhíssimas, a relatoria do caso e emperrou o trabalho da polícia por meses. A mulher do ministro Alexandre de Moraes celebrou um contrato multimilionário e mal explicado com o Master. Nenhuma dessas circunstâncias, por si, prova crime. Mas compõem um quadro suficientemente delicado para exigir o mínimo de transparência institucional.
O que se viu foi o contrário. Uma Corte na defensiva, e até agressiva, quando investigações se aproximaram de seus membros. Decisões monocráticas intimidaram críticos, bloquearam diligências e interromperam iniciativas de apuração parlamentar. O Tribunal se mostra muito mais ocupado em proteger os segredos de seus ministros do que em dissipar dúvidas legítimas.
A atuação da Procuradoria-Geral da República só intensifica a perplexidade. A relutância do procurador-geral, Paulo Gonet, em pedir a prisão de Vorcaro mereceu críticas abertas do novo relator, o ministro André Mendonça. A demora reforçou a impressão de uma instituição que, diante de suspeitas envolvendo figuras poderosas, prefere a inércia ao confronto.
Esta combinação tóxica – relações plurais e inclusivas entre autoridades políticas e administrativas, blindagem corporativista no Judiciário e complacência do Ministério Público – ajuda a explicar o silêncio constrangido que paira sobre o caso em Brasília. O esquema não envolve apenas um partido ou um governo. Ele atravessa os Três Poderes e diferentes campos ideológicos.
Quando um escândalo compromete apenas um grupo político, adversários tratam de expô-lo. Quando compromete muitos, o impulso dominante é abafá-lo. A intimidação a jornalistas é sintomática. É a imprensa que vem insistindo em colocar na sala o bode que os poderosos gostariam de esconder.
A prisão de Vorcaro pode representar o início de uma investigação que finalmente ilumine essas conexões e puna os cúmplices de fraudes multibilionárias. Ou pode ser apenas mais um episódio a se diluir no ciclo habitual de crises nacionais. O que se desenha é uma nova disputa: não entre este ou aquele grupo partidário, nem entre tal ou qual Poder ou instituição, mas entre a banda podre de Brasília (distribuída por todos os Poderes, partidos e instituições) e a banda republicana. O desfecho do caso Master revelará ao Brasil qual delas realmente predomina no coração do poder (Estadão, 5/3/26)

