Único lado certo no caso Master é o da apuração às claras – Editorial Folha
- Respostas de STF e TCU ao escândalo unem decisões mal explicadas e intimidações aparentes ao BC
- Toffoli viajou com advogado ligado ao caso, e Moraes não viu anormalidade no contrato milionário do banco com escritório de sua mulher
Em 18 de novembro, quando o Banco Central liquidou o Master horas depois de, na noite do dia anterior, a Polícia Federal haver prendido o controlador da instituição, Daniel Vorcaro, os elementos de um escândalo financeiro e político já estavam escancarados.
Fatos incontestáveis: o banco de Vorcaro recebera em março uma injeção de recursos do BRB, controlado pelo governo do Distrito Federal, que comprou suas ações sem direito a voto e manteve no posto o controlador. Uma instituição saudável não precisaria de tal socorro —e não foi no setor privado que se viabilizou o negócio da China, posteriormente desautorizado pelo BC.
Conhecem-se de longa data as conexões de Vorcaro com políticos e autoridades. Poucos dias antes do veto à transação, líderes da Câmara tentaram aprovar projeto que permitiria ao Congresso demitir diretores do BC. Pouco depois da liquidação, descobriu-se que fundos previdenciários estaduais, como os de Rio e Amapá, e municipais fizeram generosas aplicações no Master.
Para além do que é indesmentível e já gravíssimo, a PF investiga a venda de carteiras de crédito falsas de R$ 12 bilhões ao BRB, e o BC apontou indícios de fraude em negócios com fundos administrados por uma gestora suspeita de envolvimento com a facção criminosa PCC.
Diante de tudo isso, a resposta das cortes brasilienses ao escândalo —que pode custar até R$ 50 bilhões em ressarcimentos a clientes lesados— está longe de ser tranquilizadora. A começar pelo Supremo Tribunal, onde o ministro Dias Toffoli decidiu assumir o caso, que corria em instância inferior, e decretar sigilo sobre ele.
O mesmo Toffoli, que não se sentiu constrangido por ter viajado em um jato de empresário na companhia de um advogado ligado ao Master, determinou uma inusitada acareação entre Vorcaro, o ex-presidente do BRB e um diretor do BC, recuando depois da estranheza geral.
Tampouco seu colega Alexandre de Moraes viu alguma anormalidade no contrato de R$ 129 milhões firmado entre o Master e o escritório de advocacia tocado por sua esposa. Moraes diz que seus contatos recentes com a cúpula do BC trataram apenas das sanções a ele impostas e retiradas por Donald Trump.
O BC é ainda mais claramente o alvo do ministro Jhonatan de Jesus, do Tribunal de Contas da União, ex-deputado levado ao posto pelo Congresso, que determinou inspeção no órgão —ademais na mira de uma ofensiva de influenciadores contratados de modo misterioso nas redes sociais— e deixou implícita a possibilidade de reversão da liquidação.
O caso, a esta altura, tem o potencial de minar a credibilidade de instituições do Estado brasileiro. É imperativo que deixe de ser conduzido à base de decisões mal explicadas e intimidações aparentes. Não se trata de defender este ou aquele; o único lado correto é o da apuração rigorosa e transparente (Folha, 8/1/26)

