Venda de máquinas agrícolas sobe 21%; tarifaço reduz ânimo do setor
mercado de máquinas agrícolas Foto Reprodução Wikipedia
Por Marcelo Toledo
Embarques para os EUA já apresentaram queda antes mesmo do anúncio de Trump no início de julho; países sul-americanos.
Há um mês, a indústria de máquinas agrícolas previa rever a projeção de crescimento no ano, após ter em maio alta de 30% nas vendas em relação ao mesmo mês de 2024. Junho confirmou o cenário, com aumento de 20,7% na receita, mas surgiu o "efeito tarifaço" que deixou o panorama imprevisível.
Impulsionado pelo desempenho de feiras agrícolas no primeiro semestre, como Agrishow e Tecnoshow, o setor de máquinas e implementos agrícolas tinha crescido 22,8% de janeiro a maio, e previa ter um acumulado no ano de 9% de alta, acima dos 8% projetados inicialmente pela Abimaq (Associação Brasileira da Indústria de Máquinas e Equipamentos). A entidade já previa um segundo semestre de dificuldades econômicas para o setor, antes mesmo do anúncio dos Estados Unidos.
Com a tarifa aplicada pelo governo norte-americano, porém, a entidade informou nesta quarta-feira (30) minutos antes de o presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, assinar decreto que implementa uma tarifa adicional de 40% sobre o Brasil, não ter como prever o desempenho do setor devido às incertezas sobre quais segmentos e como serão atingidos pela tarifa.
"Na última reunião falei, ‘olha, nós vamos ter que rever isso aí, porque agora se passaram seis meses, está com mais de 20% [de alta]’. Então a gente estava se preparando para olhar o ano com um número maior [...] Com o tarifaço do Trump, as coisas ficaram nebulosas, porque você acrescentou um fator comportamental, econômico e comportamental, econômico nas culturas que serão afetadas diretamente, café, laranja e bovinos, no nosso caso. A gente tem uma estimativa que essas culturas representam 17% do mercado de máquinas agrícolas, não sabemos o que vai acontecer", disse Pedro Estevão, presidente da Câmara de Máquinas e Implementos Agrícolas da Abimaq.
O suco de laranja está entre as 694 exceções da decisão de Trump, ao lado de produtos do segmento de aeronaves e petróleo, entre outros. A lista não especifica tratores e colheitadeiras, base do setor de máquinas.
Nos seis primeiros meses do ano, a indústria de máquinas vendeu R$ 33,19 bilhões, com 27.415 tratores e colheitadeiras, 15,4% acima do acumulado no primeiro semestre de 2024 (23.756 unidades) e com peso maior no mercado interno.
Só em junho, as vendas atingiram R$ 6,3 bilhões, 12,2% acima do mesmo mês no ano passado.
Estados Unidos. O país, principal mercado das exportações do setor (26,6%), reduziu os embarques em 12,1% de janeiro a junho, puxados pelo menor consumo de máquinas brasileiras para o agro e para a construção.
Por outro lado, as vendas para três países sul-americanos cresceram muito em 2025: Argentina (+55,3%), Peru (+18,5%) e Chile (+12,1%).
Estevão afirmou que, além do pessimismo ligado às culturas potencialmente afetadas pela tarifa extra, outras atividades agrícolas passam a demonstrar insegurança.
"A gente vinha num ano de recuperação muito bom. Apesar do juro alto, a gente estava otimista, ou seja, a gente ainda acha que todo recurso do Plano Safra vai ser consumido pelos agricultores e agora, com esse negócio do Trump, vou ter que esperar o mês que vem para ver o que aconteceu, para avaliarmos melhor o cenário e falar [os rumos do setor]", disse.
Embora o crescimento de 20,7% em relação a 2024 seja robusto, ele ocorreu sobre uma base baixa do ano passado, prejudicado devido à seca muito forte, que derrubou a produtividade do agricultor e, consequentemente, a rentabilidade, de acordo com ele (Folha, 31/7/25)

